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Aposentadoria: lidando com a ansiedade da nova fase

por Patricia Roque
fotos por Rogério Montenegro

O cheirinho de bolo que vinha da cozinha de dona Ieda Gasparotti transformou-se de um mimo para a família em um negócio rentável. Ieda trabalhou a vida toda como representante de vendas e nas horas vagas, criava receitas para a família. Com a chegada dos 60 anos, a proximidade da aposentadoria passou a ser motivo de preocupação e ansiedade. O filho, Fernando Mello, aluno de um MBA em gestão empresarial, viu no talento culinário da mãe uma solução para a aposentadoria. E, em 2012 nascia a “Lá de Casa Bolos”, loja de bolos caseiros criada para garantir uma renda e uma atividade para dona Ieda.

“Percebi que a prLeda_Gasparotti_447 umoximidade da aposentadoria trouxe junto uma queda na renda de minha mãe, e me fez questionar também como seria o futuro dela quando não tivesse que sair todos os dias de casa, rotina que ela manteve por boa parte da vida”, conta o filho, que largou a educação física para administrar as três lojas.

Eles não estão sozinhos na preocupação. O aumento da expectativa de vida do brasileiro faz que o período pós-aposentadoria se torne motivo de preocupação e ansiedade tanto do trabalhador quanto das empresas. Segundo o coach executivo da Channel Coaching & Consulting Eduardo Barreto, esse é o motivo pelo qual cada vez mais as empresas ofereçam programas de preparação de aposentadoria. Embora ainda não seja feito em larga escala, algumas companhias e mesmo os futuros aposentados também optam pelo coach.

“O coach pode orientar bastante nesse momento porque nosso trabalho é gerar escolhas. A dúvida entre ficar em casa e ter um negócio, por exemplo, pode gerar frustração, especialmente se vier acompanhada da aparente falta de preparo para algo novo”, afirma Barreto. Em um primeiro momento, diz ele, existe o alívio de não ter de cumprir mais as tarefas diárias que o trabalho exige. “Mas isso é momentâneo. Bem rápido a pessoa percebe que ainda tem ‘lenha para queimar’”, brinca Barreto para exemplificar como a frustração se manifesta.

Satisfação pessoal
Os encontros com a equipe de recursos humanos ou mesmo com o profissional de coach é evitar que isso ocorra, ajudando a pessoa a ter escolhas. A vantagem é que na pós-aposentadoria ela pode realizar tarefas que lhe tragam satisfação pessoal, que não necessariamente estejam ligadas à sua formação profissional. “O objetivo dos encontros é dar uma visão de futuro para essa pessoa, prepará-la para um novo caminhar. Mas um caminho que ele mesmo desenhe através de questionamentos que lhe mostrem onde ela terá de fato satisfação”, diz Barreto.

“A preparação – no sentido de tomada de consciência – é importante para a busca de novas áreas de interesse e para ensinar que as possibilidades de ação não se esgotam com o fim de uma carreira”, complementa Tanise Amália Pazzim, coordenadora da Escola de Gestão Pública da Secretaria Municipal de Administração da Prefeitura de Porto Alegre, que em 2008 implantou o Programa de Preparação para Aposentadoria (PPA).

Preparando-se para a nova etapa
“A ideia é preparar os funcionários para essa nova etapa, que será a aposentadoria, oferecendo uma oportunidade de reflexão sobre o momento atual no qual eles se encontram em sua carreira funcional assim como uma preparação para o seu desligamento através de questionamentos sobre os aspectos biológicos, sociais, psicológicos e até econômicos, que se manifestam com maior intensidade no período que antecede a aposentadoria”, diz.

Segundo Tanise, o programa em Porto Alegre é destinado a todos os servidores que irão se aposentar nos próximos cinco anos, após a data do início do curso, independentemente do cargo que exerce. A prefeitura de Porto Alegre tem hoje 30.610 servidores, sendo 22.850 ativos. Quase cinco mil desses servidores devem se aposentar nos próximos cinco anos. Entretanto, diz ela, a maioria que opta em participar do PPA é aquele público mais emergencial, faltando alguns meses para se aposentar. Até dezembro do ano passado, 645 funcionários realizaram o curso.

Cada curso tem a duração de 32 horas, distribuídas por quatro semanas. Nesse período, temas como previdência pública municipal, aspectos psicológicos, significados do trabalho e da aposentadoria, aspectos sociais e familiares da aposentadoria, cuidados com a saúde, administração financeira e planejamento pós-carreira são abordados pelos educadores – uma equipe multidisciplinar e coordenada por uma psicóloga, uma professora e uma assistente social. Uma entrevista com o futuro aposentado encerra os encontros.