O comportamento responsável – Eugenio Mussak

Poucas atitudes são mais desejadas e até exigidas no mundo profissional do que a responsabilidade. Atitude responsável é o que pavimenta o caminho para a confiança e a para a lealdade.

Até podemos perdoar aqueles defeitos que podem ser corrigidos mediante algum treinamento, como a recepcionista que não foi assim tão simpática, ou o garçom que está meio atrapalhado, ou ainda aquele funcionário cuja habilidade ainda precisa melhorar. Ele até irrita um pouco, mas nós somos condescendentes com ele, pois entendemos que está em processo de educação.

Ineficiência é compreensível. Irresponsabilidade não.

A primeira pertence ao grupo dos comportamentos educáveis. A segunda pertence ao caráter.

 

Responsável é a pessoa que responde pelos seus próprios atos, ou pelos atos de outras pessoas, pelas quais ele é “responsável”. Assumir responsabilidade significa incorporar o demérito de um possível fracasso e, ao mesmo tempo, ter a grandeza de compartilhar o mérito de um possível sucesso. “Deixa que eu faço. Se der certo é mérito da equipe. Se der errado eu assumo a responsabilidade”. Esse é o tipo de pessoa que as corporações estão querendo.

 Se, por um lado, ser responsável é “responder pelos próprios atos”, por outro também significa “corresponder” às expectativas das outras pessoas, sejam colegas, chefes, subordinados ou clientes.

A sociedade moderna está construída para valorizar cada vez mais a cadeia de produção. Hoje fazemos tudo coletivamente. Há muito acabou a época do artesão independente, que, como um sapateiro, comprava o couro, cortava, costurava, preparava a sola, montava o sapato e ainda o vendia. Hoje quem faz isso é a equipe, e é justamente dessa mudança que veio o progresso.

 

Por isso a responsabilidade está tão em alta. A falha de um compromete o trabalho de todos, portanto, o produto final. O ditado “nenhuma corrente é mais forte do que seu elo mais fraco” nunca foi tão moderno.

Uma equipe pode ter e até deve ter diferenças. Conhecimentos, habilidades, velocidades, percepções, tarefas podem ser diferentes. Responsabilidade não. Essa deve ser igual para todos os membros.

A reação em cadeia provocada por um ato irresponsável aparentemente pequeno pode por tudo a perder. Lembra das fraudes irresponsáveis nos balanços daquelas companhias americanas? Pois é, o mundo está pagando o pato.

 

É famosa a história do Rei Ricardo III, que conduzia seu exercito para uma batalha contra Henrique, Conde de Richmond, na disputa pela coroa da Inglaterra. No calor da batalha, ele precisou disparar para aglutinar parte do exercito que estava debandando, quando seu cavalo perdeu uma ferradura e caiu. Depois levantou-se e fugiu, deixando Ricardo a pé e gritando: “um cavalo, meu reino por um cavalo”. Pois é, consta que isso aconteceu porque o ferreiro, irresponsavelmente, achou que um prego a menos por ferradura não faria mal, e ele economizaria pregos, em falta durante a guerra. Por causa de um prego perdeu-se a ferradura, o cavalo, a batalha, o reinado. Não há responsabilidade maior ou menor. Há apenas responsabilidade.

 

O filósofo grego Aristóteles foi um dos primeiros pensadores a observar a importância da responsabilidade. Dizia ele que nós somos aquilo que nos tornamos através de nossas ações repetidas. Nós temos, portanto, a responsabilidade de definir o que desejamos ser, e como desejamos ser vistos pela coletividade.

 

Um jovem ateniense fazia, aos dezessete anos, o juramento que o transformava em cidadão. Jurava lutar pela observância das leis e dos ideais, e no final dizia que pretendia legar uma cidade maior e melhor do que aquela que tinha recebido para habitar. A consciência do cidadão (habitante da cidade, do conjunto de pessoas que compartilham um espaço) é um ato de responsabilidade.

 

Segundo os gregos, o ser “político” é qualquer pessoa que se interesse pelo bem comum, pela harmonia da cidade (polis).

Através do juramento, o jovem transformava-se em cidadão, pois mostrava ter adquirido consciência política. Aquele que não assumisse a responsabilidade política de zelar pela coletividade era considerado um “idiota”, ou seja, centrada apenas em si mesmo (id) e em seus interesses particulares. Infelizmente, hoje, encontramos “políticos” que acumulam a função de “idiotas”.

 Não abra mão de ser responsável. Prefira ser acusado de ignorante (pois isso se corrige) do que de irresponsável. Tudo o que merece ser feito, merece ser bem feito.

E repare que a percepção das conseqüências de nossos atos é o primeiro sinal do comportamento responsável. A respeito da responsabilidade disse Carlos Drummond de Andrade: “…chega um tempo que não adianta nem morrer. Chega um tempo em que a vida é uma ordem. A vida apenas, sem mistificação…”



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