ULYSSES BOSCOLO

20/01/2015

“Um breve relâmpago

ilumina a escuridão:

garça gritando a noite.

O grito da noite

esgarça-se branco

num breve relâmpago.”

“Relâmpago”. Bashô (1644 – 1694)

 

Olho mágico Revoada Sonhos

Esse poder que Bashô possuía de tornar visível cada palavra, ou antes, criar imagens

vivas através de alguns poucos versos que definem a forma do Haikai, lembra-nos,

de forma inversa, as gravuras, desenhos e pinturas de Ulysses Boscolo, poeta

de imagens, que extrai de cada figura do mundo, por mais singela que seja (e

talvez justamente por isso) seu sumo mais real, mais verdadeiro, que não poderia

ser outro, senão o poético. Com isso, sua obra tem nos permitido vislumbrar as

inumeráveis ligações que vibram as cordas desse tecido fino que alinhava o mundo,

revelando sentidos, ordens provisórias, “padrões”orgânicos de uma tapeçaria sem

fim. A luz de seu olhar engendra gestos com a força, claridade e estrondo de um

relâmpago. Às vezes, o olho assustado de um pássaro reflete de modo insuspeito

o sol inteiro e a distância do olho ao sol. Tudo isso pode caber em um minúsculo

toque de tinta branca, ou no triscar da lâmina na madeira. Se você reparar, há uma

boa vontade nisso tudo, uma certa aceitação alegre da vida, que é recompensada

por visões extraordinárias, mesmo que minúsculas.

 

Ernesto Bonato, curador do ArteVAGAS
Janeiro de 2015

 

 

Nenhum comentário

No comments yet.

Leave a comment