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Toda a beleza da profissão – seja ela qual for

Filme de 1994 celebrou a amizade entre um carteiro e um escritor

por Josafá Crisóstomo*

O Carteiro e o Poeta foi um dos grandes sucessos do cinema europeu. Lançado em 1994, trata-se de uma adaptação livre ao cinema do romance de Antonio Skármeta, que conta a respeito da amizade entre o poeta chileno Pablo Neruda (Philippe Noiret) e um carteiro, Mario Ruoppolo (Massimo Troisi). No filme, esse encontro se dá no início dos anos 50, quando Neruda teria sido obrigado a exilar-se em uma ilha do Mediterrâneo.

O cineasta britânico Michael Radford assina essa história da amizade entre dois homens separados por diferenças profundas de formação e mesmo de condição social, mas que pôde ser reveladora do melhor da condição humana, posto que tal encontro foi mediado pela poesia.

Contudo, para além de uma reflexão sobre o papel da literatura e da poesia em nossas vidas, o filme imortaliza duas profissões de extraordinária importância em termos dos padrões éticos e estéticos que por elas podemos desenvolver, ou seja, as atuações profissionais do carteiro e do escritor. Esse último, ainda mais por ser poeta tem como função construir uma ponte entre a palavra criativa e seu público, já o primeiro literalmente constrói uma ponte entre remetentes e destinatários, seja eles de cartas e/ou encomendas.

Dignidade e responsabilidade
No entanto, o que muito claramente o filme demonstra é que todo cidadão consciente percebe a beleza de sua profissão, seja ela qual for, e, assim sendo, certamente a realiza com dignidade e responsabilidade. O importante, no entanto, é que tal compromisso seja efetivo não apenas por uma disposição lógica ou racional. Para alcançá-lo será preciso um plus: que ele seja também motivado pela admiração ou um sentimento elevado como o amor.

Em geral, temos a tendência a separar os vários setores que congregam nossa vida: trabalho, família, escola, amizade, escolhas políticas etc. Como se fosse sempre possível vivermos diferentes personagens nas diferentes instâncias em que atuamos.

O personagem desempenhado por Massimo Troisi (Mario Ruoppolo, o carteiro) é exemplarmente cativante, por provocar uma afinidade quase instantânea entre o espectador e esse homem simples de uma ilha longínqua e isso se dá porque ele insiste em aprender enquanto trabalha, em relacionar a amizade com um homem cosmopolita e poeta e sua própria atuação profissional e mesmo sua vida emocional, como quando, por exemplo, se apaixona por Beatrice (Maria Grazia Cucinotta).

Se um simples carteiro, pouco alfabetizado, morador de um mísero povoado, pode compreender a importância da função poética da linguagem e inseri-la nas diferentes instâncias da sua vida pública ou privada, como também demonstra essa personagem fascinante, é possível inferir que qualquer outro profissional pode também fazer a mesma descoberta, ou seja, a de que está na linguagem e na sua apropriação criativa o verdadeiro segredo para alcançar objetivos de realização em todas as esferas do desejo: sejam os de ordem profissional ou de ordem emotiva.

Serviço
O Carteiro e o Poeta (Il Postino), Itália, 1994, Romance, 116 min., Direçao: Michael Radford, Elenco: Linda Moretti, Maria Grazia Cucinotta, Massimo Troisi, Philippe Noiret, Renato Scarpa

**professor, jornalista e crítico de cinema