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Pelé e José Saramago, dois gênios da raça

Por Paulo Verano

Você conhece a história do garoto Edson? E a do senhor José? Pois vou lhes contar.

Comecemos pelo menino. Desde pequeno, era um ás no esporte. Não em qualquer esporte, mas no esporte mais popular de seu país, o futebol. Aliás, justamente por causa desse rapazinho, Brasil e futebol se tornaram palavras sinônimas mundo afora.

Edson nasceu numa cidade de pouco mais de 70 mil habitantes. Isso hoje, porque há cerca de 70 anos tinha bem menos. De Três Corações, no interior de Minas Gerais, foi triunfar em uma cidade com vista para o mar: Santos. Da importante cidade portuária paulista, tornou-se tão imenso quanto a água salgada do planeta. Predestinado, começou a atuar pelo alvinegro praiano aos 15 anos e, um ano depois, já era o camisa 10 da seleção brasileira de futebol.

Foi tricampeão mundial pelo escrete canarinho, jogou nos Estados Unidos no fim da carreira, marcou mais de mil gols. Não tinha três corações, mas era ambidestro: perfeito com a direita e a esquerda. Era o que costumamos chamar de gênio. Pendurou as chuteiras há 35 anos; porém, nunca perdeu a majestade. Quando surge um novo nome no futebol, como Maradona ou Zico, Messi ou Neymar, é sempre com o menino de Três Corações que será comparado e posto à prova.

Agora falemos do senhor José. Também nasceu numa cidadezinha pequena, não do Brasil, mas de Portugal, chamada Azinhaga. Aos dois anos foi viver em Lisboa com os pais, que deixaram a vida de camponeses pela cidade grande. As dificuldades econômicas o impediram de continuar os estudos, obrigando-o a trocar o ensino superior pelo primeiro emprego como serralheiro mecânico. Trabalhou depois como desenhista, funcionário público da saúde e da previdência social, tradutor, editor e jornalista.

Como gostava de escrever, lutou para publicar seu primeiro livro, o que conseguiu em 1947, quando tinha 25 anos. Precisou se afastar dos romances até 1966, mas só alcançaria fama internacional depois da publicação de Memorial do Convento, em 1982. Ao morrer, em 2010, o senhor José já seria um escritor de enorme prestígio, o que é emblemático pelo Prêmio Nobel de Literatura que lhe foi concedido em 1998.

Os dois mestres — o da bola e o da escrita — são exemplos de sucesso alcançado por caminhos diferentes. O menino teve carreira profissional sem sobressaltos, indo de Três Corações ao estrelato máximo antes dos 20 anos de idade, e assim se manteve até o fim de sua trajetória nos gramados, às custas de seu talento inato, mas também de muito treino. O senhor José precisou esperar até os 60 anos para se ver consagrado internacionalmente no que sempre desejou fazer: escrever romances. Precisou conciliar as características do menino de Três Corações com uma persistência infinita.

Pelé e José Saramago são dois gênios da raça, cada um na sua área de atuação, e cada um à sua maneira soube transformar o “sonho de menino” em realização de vida. São dois exemplos de trajetória profissional: demonstram que podemos começar numa profissão e nela seguirmos para sempre, nos esforçando para sermos cada vez melhores e jamais nos acomodando, mas que também temos o direito de nos reinventarmos continuamente em busca de nossos sonhos.