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Professor é personagem de retrato da injustiça

Filme dinamarquês é um libelo acusatório contra o lugar comum

por Josafá Crisóstomo*

O filme A Caça, do cineasta dinamarquês Thomas Vinterberg, é um libelo acusatório contra o lugar comum, a começar por aquele que diz que uma criança nunca mente. Isso não é verdade. Ela não apenas pode mentir como também com isso causar gravíssimos aborrecimentos para quem for a vítima de sua mentira. É exatamente o que acontece com um professor de uma escola de educação infantil, Lucas (Mads Mikkelsen), que se torna suspeito de abuso sexual contra uma garotinha, Klara (Annika Wedderkopp), que, além de ser aluna da referida escola, é também filha de um velho amigo do acusado.

O que faz com que o expectador desta história fique chocado é o fato de que a acusação contra o professor é absolutamente sem provas (exatamente como aconteceu no famoso caso da Escola Base, aqui no Brasil). Ela partiu de um mero comentário da menina, aliás, feito logo depois de ela ficar tristinha com um limite que o próprio professor estabeleceu na relação de ambos, justamente quando ela lhe dera um beijinho no canto dos lábios.

“Beijo na boca você só pode dar no papai e na mamãe”, ele lhe dissera. A investigação escolar, conduzida pela diretora e um psicólogo, buscou na verdade induzir a aluna àquilo que eles próprios queriam crer como verdadeiro e, portanto, garantir a culpa do professor. Assim sendo, foi o suficiente para que esse pai de família passasse a viver um verdadeiro pesadelo na comunidade em que ele sempre vivera sendo respeitado.

Delicadeza e sensibilidade
O que o filme evoca com muita delicadeza e sensibilidade, sobretudo pela personalidade da personagem, exemplarmente vivida pelo ator principal, é que o amor do professor por sua profissão, pelo seu filho (um adolescente que sofre muitíssimo com toda a situação), pela própria comunidade e mesmo pelo seu amigo tornado inimigo (o pai da criança), esse sentimento quando estruturado pela inocência é capaz de suportar os maiores desafios e aguardar que toda uma tempestade terrível seja desaguada.

Um verdadeiro professor é alguém que sustenta sua índole nesta certeza absoluta da verdade do seu trabalho, ele não se culpa e nem tampouco a criança. Quando o filme nos traz uma situação limite como essa é inevitável que pensemos também em todas as outras circunstâncias problemáticas do fazer pedagógico e que envolvem, por exemplo, a gestão escolar, a relação do educador com os pais e/ou responsáveis pelo educando e a própria relação que se estabelece entre esse último e o educador.

Será sempre necessário impor limites à relação professor/aluno, sem deixar de nutrir os sentimentos compatíveis com a função, fomentados durante a tarefa pedagógica. Isso inclui uma relação de profundo respeito para com o educando. Afinal, educar não é apenas transmitir conhecimento ou informação. É aprender junto com o aluno o que é ser respeitável em qualquer circunstância, mesmo em um mundo que se revela por vezes perigoso, justamente quando falta a sensibilidade necessária para o fomento desta educação integral.

Serviço
A Caça (Jagten), Dinamarca, 2012, drama, 110 min., Direção: Thomas Vinterberg. Elenco: Mads Mikkelsen, Thomas Bo Larsen, Annika Wedderkopp

*professor, jornalista e crítico de cinema