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Peripécias de um jornalista bêbado

Filme com Johnny Depp retrata "jornalismo gonzo” de Hunter S. Thompson

por Josafá Crisóstomo

Diário de um Jornalista Bêbado, dirigido e roteirizado por Bruce Robinson e estrelado por Johnny Depp, é um filme que tem como protagonista Paul Kemp, personagem autobiográfico de Hunter S. Thompson. Ele nos conta nesta história suas aventuras nos anos de 1960, em Porto Rico, quando o jornalista e escritor norte-americano trabalhou em um jornaleco em San Juan.

Se você pretende vir a ser jornalista, cursa jornalismo ou já trabalha em uma redação de jornal ou site noticioso provavelmente deve ter ouvido falar no chamado “jornalismo gonzo”, do qual Thompson foi pioneiro. Trata-se de um modo de se fazer jornalismo que lembra o new journalism, uma vez que ambos tiveram como palco de seu nascimento o universo da contracultura americana dos anos 1960.

Nesse modo de atuar na área, se desconstrói as regras da objetividade jornalística, permitindo-se, então, por parte deste profissional da comunicação, vivências e percepções bastante pessoais, em um flerte evidente com o fazer literário. E é isso exatamente o que observamos nesta história que fala das dificuldades da profissão, principalmente uma importante circunstância em voga em qualquer tempo: o assédio que tais profissionais sofrem por parte das grandes corporações financiadoras desta atividade.

Tanto o redator-chefe do jornal, como os financistas dos EUA, querem que Paul Kemp apenas se reporte às paradisíacas paisagens do Caribe em suas matérias, e, ao mesmo tempo, ele é assediado por um ex-jornalista, agora influente na política local, a participar do mascaramento de um portentoso negócio de especulação imobiliária e que, na verdade, está tirando a terra dos portorriquenhos.

Reflexões sobre questões éticas
Em meio a cenas, por vezes engraçadas e mesmo tensas, o filme nos remete a reflexões sobre questões éticas que devem ser consideradas nesta profissão. Sabemos que o autor afirmou que seu livro (a inspiração para este roteiro) foi obra de um período em que ele, aos vinte e dois anos, era ainda romântico e, portanto, um jornalista inocente, mas sabemos também que, quando querem, os jovens são verdadeiramente inspiradores ao nos permitir a redescoberta dos valores éticos por trás de nossas escolhas. Não temos hoje os blogueiros de plantão e os profissionais de sites que recriam esta espécie de jornalismo alternativo ao mainstream?

É assim que, durante suas peripécias, Kemp nos diz coisas profundas como uma citação de Oscar Wilde, com a qual, por exemplo, descreve os especuladores com os quais passa a conviver: “Eles sabem o preço de tudo e o valor de nada.” Quando está em pleno delírio – sob o efeito de um “colírio alucinógeno”, que não é uma invenção apenas de nosso José Simão – ele é capaz ainda de dizer tiradas poéticas como esta: “Os seres humanos são as únicas criaturas da terra que reivindicam um Deus e são a única coisa viva que se comporta como se Ele não existisse”, ou mesmo quando descobriu qual a conexão que há “entre crianças à procura de alimentos e as brilhantes placas de latão na fachada dos bancos”.

Essa verdadeira ode a um importante e famoso jornalista, como toda biografia de pessoa verdadeiramente influente, é mesmo profundamente inspiradora e por isso recomendamos com fervor sua fruição pelos interessados na área de comunicação.

Serviço
Diário de um Jornalista Bêbado (The Rum Diary), EUA , 2011, 120 min., Comédia. Direção: Bruce Robinson. Elenco: Johnny Depp, Aaron Eckhart, Michael Rispoli, Giovanni Ribisi e Amber Heard.