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Na cozinha, autenticidade é a palavra de ordem

Soul Kitchen conta a história do proprietário de um restaurante

por Josafá Crisóstomo

Soul Kitchen, do diretor alemão de ascendência turca, Fatih Akin, conta a história do proprietário de um decadente restaurante popular de mesmo nome, localizado em um bairro industrial de Hamburgo. Endividado e lidando sozinho na empreitada, sente-se abandonado quando sua namorada o deixa para trabalhar em Xangai. Além disso, seu irmão trapaceiro Illias (Moritz Bleibtreu), viciado em jogos, pede-lhe um emprego no restaurante para manter sua liberdade condicional.

Zinos Kazantsakis (Adam Bousdoukos) encontra-se nesta situação quando conhece Shayn (Birol Ünel), um chefe de cozinha muito especial que, por sua vez, perdeu o emprego em um restaurante de luxo por se recusar a atender um cliente autoritário, que desejava lhe esquentassem seu gaspacho, a famosa sopa fria à base de hortaliças, originária da península ibérica.

Aliás, este filme propaga que autenticidade é a palavra de ordem quando a atividade do profissional é cozinhar e, ao mesmo, levar um negócio adiante. De outro modo, como explicar que o gerente do Soul Kitchen não se importe que os clientes habituais abandonem o lugar, quando no menu surgem as invencionices da cozinha sob nova direção? As iguarias são visivelmente deliciosas, mas demandam um paladar mais refinado.

Metáforas evidentes
Zinos passa boa parte do filme sofrendo de hérnia de disco, uma metáfora evidente de que estar no comando de um negócio requer equilíbrio nas outras esferas de ação humana, ou seja, para além da profissional. Apenas quando se decide por desistir, por exemplo, de correr atrás de Nadine (Phéline Roggan), a namorada que o abandonara, e entregar-se a um tratamento nada usual com a ajuda de sua fisioterapeuta é, então, que tudo se deslinda em sua vida.

O filme é dinâmico e, por vezes, delirante como pode acontecer na vida de qualquer um que se permita correr riscos, o que nos faz pensar que todo empreendedor ao abrir um negócio deverá contar com aquela parcela de risco inerente a qualquer atividade. Personagens que encarnam vilões, como o especulador imobiliário Thomas Neumann (Wotan Wilke Möhring), que pretende vender o galpão onde está instalado o Soul Kitchen, ou seja, pessoas assim sempre podem aparecer no seu caminho e é preciso estar alerta.

Para sobreviver aos diferentes meandros de uma atividade comercial, devemos fazer como o protagonista restaurateur, que, associado aos seus ecléticos amigos, precisou sempre se reinventar. Nesse ínterim, a casa se tornou até um clube noturno com filas na porta, mas – isso é o mais importante – sem nunca perder a marca de originalidade do coração de seu negócio, a sua cozinha: um lugar de reinvenção e refinamento da alma.

Serviço
Soul Kitchen, Alemanha, 2009, comédia dramática, 99 min. Direção: Fatih Akin. Elenco: Adam Bousdoukos, Moritz Bleibtreu, Birol Ünel, Phéline Roggan.