Home > Oráculo > Filme sobre advogados fala de ética – ou a falta dela

Filme sobre advogados fala de ética – ou a falta dela

Jovem vai trabalhar em escritório de advocacia envolvido com a máfia

por Josafá Crisóstomo*

“Prometo exercer a advocacia com dignidade e independência, observar a ética, os deveres e prerrogativas profissionais e defender a Constituição, a ordem jurídica do Estado Democrático, os direitos humanos, a justiça social, a boa aplicação das leis, a rápida administração da justiça e o aperfeiçoamento da cultura e das instituições jurídicas.” Este é, mutatis mutandi, o equivalente brasileiro ao juramento que Mitch McDeere (Tom Cruise), advogado recém-formado em Harvard, também presta em cena do filme A Firma, dirigido por Sydney Pollack.

O dramático na cena é que faz parte daquele juramento ser fiel ao cliente, guardando seus segredos em quaisquer circunstâncias, sob pena de perder o direito de exercer a profissão no futuro. McDeere acabara de aceitar uma proposta milionária para trabalhar em uma firma de advocacia. Mas, a essa altura, ele já sabia que, na verdade, a empresa servia de fachada para lavar dinheiro da máfia, e que todos os advogados, que saíram ou tentaram sair dela, morreram de forma misteriosa. Ele também já está sendo pressionado por investigadores do FBI, que lhe confirmaram a enrascada em que se meteu. Querem sua cooperação, mas, então, ele perderá seu registro de advogado por quebra de sigilo profissional.

Para todo advogado, esse é sem dúvida um filme inspirador, pois a questão ética que envolve essa situação sem saída da personagem solicitará um questionamento para além das circunstâncias. O que de fato motiva alguém a aceitar um emprego vantajoso, mas que se revela uma verdadeira derrocada moral? Em uma cena emblemática, a personagem de Cruise encontra uma jovem que sofria agressão de um homem na praia e ela lhe diz que não se tratava de um namorado, mas de um cliente. Nessa ocasião, ele ouve uma declaração que espelha sua situação: ela queria apenas ser rica e ter os objetos materiais do seu desejo, e, portanto, não mediu as consequências ou os riscos a que se submetera.

A verdade é que quando a esmola é muita o santo deve mesmo desconfiar. Por exemplo, ao ser informada de todas as vantagens que a firma lhes prometia, sua esposa, Abby McDeere (Jeanne Tripplehorn), lhe perguntara: “Por quê?”. De qualquer modo, custou-lhe bem caro saber a resposta a essa questão. Não serei um spoiler e não contarei se o personagem saiu dessa enrascada. Mas deixo ao leitor outra pergunta: o que você faria se, sendo advogado, sua dignidade fosse colocada em cheque?

Serviço
A Firma (The Firm), EUA, 1993, Suspense, 154 min., Direção: Sydney Pollack, Elenco: Tom Cruise, Jeanne Tripplehorn, Gene Hackman e Holly Hunter.

*professor, jornalista e crítico de cinema