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Educação para além dos muros da escola

por Josafá Crisóstomo*

O filme Entre os Muros da Escola (Entre les Murs), do diretor Laurent Cantet, foi o vencedor da Palma de Ouro em Cannes em 2008 e retrata o cotidiano da relação de um professor de Língua Francesa com seus alunos da 7ª série de uma escola pública na periferia de Paris, buscando fazer com que fale uma mesma “língua” uma turma de alunos bastante heterogênea, constituída de filhos de imigrantes africanos, turcos, asiáticos, além de filhos de franceses, todos pertencentes àquela comunidade carente.

O professor é interpretado pelo também professor na vida real, François Bégaudeau, e autor do romance que deu origem ao filme. Além disso, os adolescentes são alunos de uma escola semelhante à retratada na tela e que fizeram uma oficina de interpretação para atuar no cinema. Por conta disso, professor e alunos são muito convincentes, dando a esta ficção ares de documentário.

A lição do filme mostra que a instituição escolar solicita de seus agentes, dentre outras, a difícil tarefa de civilizar-se; que ela impõe limites, ainda que dentro de uma tradição cultural própria e considerando as forças antagônicas no convívio social. Isso tudo em meio a dificuldades que são de toda ordem, desde o pulsar das emoções e dos hormônios que estão a eclodir na adolescência até a influência da realidade socioeconômica das famílias dos alunos.

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Livro é ainda mais denso
O livro homônimo (publicado no Brasil pela Martins Fontes, na tradução de Marina Ribeiro Leite) é obra mais densa que sua versão fílmica, mas isso não tira o mérito dessa última, e nele os professores mais conservadores e que tendem a lamentar o fato de que não temos mais o rigor das sanções que ocorriam dentro da escola, por exemplo, no tempo dos nossos avós, recebem um recado categórico:

Ainda que a falta de assiduidade, de respeito e de muitos outros fatores que são a causa desse questionamento estejam frequentemente presentes nos estabelecimentos, restaurar essa autoridade nos moldes dos costumes antigos seria uma boa solução? Acho que não. Os jovens de hoje não aceitariam esse tipo de autoridade. Nem sequer conseguem imaginá-la. Essa nova geração não é majoritariamente partidária de sanções, de pressão constante e intempestiva, já basta a que existe.

É por esse motivo que tanto o livro quanto o filme são obras imprescindíveis para as reflexões sobre educação, voltadas a todo profissional que deseje se atualizar na carreira do magistério. A análise de Bégaudeu aponta, inclusive, para o que ocorre além dos muros da escola, uma vez que a educação nunca é apenas ”escolar”, tal instituição não existe fora do mundo ou à parte do feixe de relações em que se instituem todos os que nela vivem e a fazem viver.

Entre os Muros da Escola (Entre les Murs), 2008, França, drama, 128 min. Direção: Laurent Cantet – Elenco: François Bégaudeau, Nassim Amrabt, Laura Baquela, Cherif Bounaïdja Rachedi.

*professor, jornalista e crítico de cinema