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Disputa de egos em clássico de Hollywood

Longa de 1957 ganhou vários prêmios do Oscar, inclusive de melhor filme

por Josafá Crisóstomo

Considerado um clássico de Hollywood, o filme A Ponte do Rio Kwai (1957), do diretor britânico David Lean, ganhou dentre outros o Oscar de melhor filme e de melhor roteiro, baseado no livro de Pierre Boule. Livro e filme tiveram como base um episódio real que se passou em Kanchanaburi (oeste da Tailândia), durante a Segunda Guerra Mundial. O país declarara guerra à Grã Bretanha e aos EUA e por isso permitiu que tropas do Japão ocupassem seu território. Isso ocorrendo, os japoneses planejaram construir, em cinco ou seis anos, uma ferrovia para ligar a Tailândia à Mayanmia (antiga Birmânia), incluindo uma ponte sobre o rio Kwai Yai.

Assim sendo, milhares de asiáticos e de prisioneiros de guerra morreram durante essa construção, que durou, em verdade, cerca de três anos.

Na tela de cinema temos, inicialmente, dois coronéis em disputa de egos: Coronel Saito (Sessue Hayakawa) e Coronel Nicholson (Alec Guinness). Esse último é o encarregado de comandar a construção da citada ponte em apenas alguns meses. Noutro vértice, temos o Major Shears (William Holden), norte-americano que decide fugir do campo de trabalhos forçados e acaba convidado a voltar ao local, acompanhado de militares britânicos, como o respeitável Major Warden (Jack Hawkins). Tais militares têm como missão justamente explodir a ponte.

Conflitos entre antagonistas
Todo esse contexto em seus desdobramentos de conflitos entre os antagonistas, mas também de cada qual consigo mesmo, bem como a resultante mortandade que eclode, possibilita que um único personagem, Doutor Clipton (James Donald), é quem possa bradar com lucidez no desfecho do filme que tudo não passa de “Loucura! Loucura!”.

Como a ponte que dá título ao filme é uma obra de engenharia, podemos perceber uma sugestão a respeito do mote “Seja feliz no trabalho”, que, aliás, é um bordão na boca do alucinado coronel japonês. O problema é que de fato ser feliz no trabalho não é algo que possa ser imposto de fora para dentro. A determinação para alcançar tal felicidade está na persistência e no orgulho que se tenha do trabalho e, sobretudo, na certeza de que não é possível perder tempo com desentendimentos durante um projeto. Tudo isso nos esclarece o Coronel Nicholson.

Para ele uma missão de tal envergadura deve ser feita em qualquer circunstância e suas atitudes nos revelam que quando se é um líder é possível conseguir feitos até sobre-humanos de colaboradores, como quando os soldados do posto médico acatam sua vontade e também vão trabalhar na ponte. Em seu discurso, o Coronel enfatiza que os soldados sentirão orgulho do que fizeram ali, justamente em vista da grande adversidade e se o que fizeram vir a ser lembrado, isso ocorrerá devido ao fato de terem sobrevivido com honra, transformando derrota em vitória.

Assim como o coronel, qualquer um poderá se perguntar, em função do seu trabalho, a respeito do que representa a soma total da sua própria vida. Uma conclusão tão válida quanto qualquer outra seria a de se ter vivido com determinação em participar da construção de um grande empreendimento, mas desde que, como diria o Major Shears, saibamos que a única coisa importante é viver como um ser humano, ou seja, aquele que pode desejar antes de tudo construir ao invés de destruir pontes.

A Ponte do Rio Kwai (The Bridge on the River Kwai), 1957, EUA/Reino Unido, drama, 161 min. Direção: David Lean. Elenco: William Holden, Alec Guinness, Jack Hawkins, Sessue Hayakawa, James Donald, Geoffrey Horne, Andre Morell e Peter Williams.