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Como se manter no topo em qualquer circunstância

por Josafá Crisóstomo*

O Vendedor (2010), do diretor canadense Sébastien Pilote, é um longa-metragem que conta a história de um obcecado vendedor de automóveis, que, mesmo em tempos de crise e diante de uma tragédia pessoal, não consegue e nem pretende se afastar do seu trabalho. Toda a riqueza do filme se concentra na vida do protagonista, Marcel Lévesque (Gilbert Sicotte), e nessa sua característica inequívoca: não desistir jamais de se manter no topo. Afinal, esse senhor de 67 anos é o único vendedor da cidade que há exatos 16 anos mantém o título de melhor vendedor de uma concessionária de automóveis local.

Como pano de fundo da história, retratam-se os desdobramentos da crise econômica de 2008 no hemisfério norte e a situação de desemprego em massa que aturde os trabalhadores da cidade industrial de Lac Saint-Jean, na região do Quebec – maior província do Canadá. Sem os empregos, a economia local decai e menos compradores aparecem na loja. Mas nosso vendedor não se deixa abater. Mesmo com a queda vertiginosa das vendas de carros, ele se manterá no topo, sempre, como o número um. Aliás, o filme equilibra momentos de tensão contida, com verdadeiras lições de vida desse homem determinado, que é também um bom pai e um excelente avô.

Sonho de ser vendedor
O netinho manifesta o desejo de quando crescer ser também um vendedor. Então Marcel lhe descreve as principais características que lhe permitirão ser o melhor na profissão: gostar das pessoas e com elas se preocupar. A respeito dos clientes ele diz: “Você precisa olhar em seus olhos. Se você olha em seus olhos, você olha para suas almas”.

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Marcel é católico e acredita que é preciso, sim, pedir a Deus para se ter a sorte de os clientes aparecerem no seu caminho. Não por um acaso, ao rezar o Pai Nosso com seu neto, a criança em dificuldade repete pelo menos três vezes o trecho comme nous pardonnons à ceux qui nous ont offensés (como nós perdoamos a quem nos tem ofendido), como a confirmar o que já nos disse a cientista política e filósofa Hannah Arendt: antes da lição cristã do perdão, os homens estavam condenados para todo o sempre por uma única ação, que, além de equivocada, também era irreparável.

O filme completa esse recado, sugerindo que perdoar ou recomeçar exige sempre disciplina. Isso é exatamente o que não falta a seu protagonista. Do contrário, como ser perseverante em qualquer circunstância?

Paciência, abnegação e coragem
Para quem trabalha com vendas, conhecer um testemunho como esse se reveste de um caráter pedagógico, pois aprendemos que é possível desenvolver com naturalidade os atributos essenciais desta profissão. Além disso, mais do que determinação, o vendedor é alguém que deve demonstrar muita força em atributos do caráter como paciência, abnegação e coragem.

*professor, jornalista e crítico de cinema