Home > Oráculo > A atualidade da Secretária de Futuro

A atualidade da Secretária de Futuro

Não tem como não torcer pela personagem heroína de Melanie Griffith em longa

por Josafá Crisóstomo

Há uma adorável comédia romântica produzida em Hollywood no final da década de 1980 cuja principal qualidade vai além de conter os melhores aspectos do gênero: entretenimento honesto com direito a um humor sensato, aposta no amor romântico como o verdadeiro e, portanto, digno do “felizes para sempre”, além da vitória garantida do casal protagonista, mas somente depois do enfrentamento dos dilemas e desafios que, inicialmente, parecem sempre quase intransponíveis.

Sim, Uma Secretária de Futuro apresenta todos esses ingredientes que garantem o sucesso de qualquer comédia romântica de qualidade, mas ele tem ainda algo a mais. A heroína é uma profissional muito talentosa e que não está exatamente procurando um amor, mas um lugar ao sol no concorrido mundo dos negócios do mercado de ações norte-americano.

Na cena de abertura, ficamos sabendo que Tess McGill (Melanie Griffith) é uma moça de origem pobre, ela se veste como suas colegas suburbanas, e namora um moço da mesma origem; além disso, a moça não estudou nas melhores universidades, apenas em cursos noturnos.

Camaradagem
Mas Tess consegue estar sempre bem informada e não tem medo de expor suas ideias. Enquanto trabalha apenas com homens sofre todo tipo de assédio moral. Nesse sentido, tudo parece que irá mudar para melhor, quando ela se torna assistente de confiança de Katharine Parker (Sigourney Weaver), uma importante empresária que lhe diz que a relação delas será de “mão dupla”, propondo com isso uma camaradagem recíproca.

Tal atitude deu abertura para que Tess lhe apresentasse uma ideia bastante original para o fechamento de um negócio milionário. Logo após, no entanto, sua chefe quebra a perna em uma estação de esqui e fica imobilizada, afastando-se do escritório. Na ocasião, Tess descobre por um acaso que a mesma pretendia levar sua ideia adiante sem dividir consigo os louros da empreitada.

Então, em parceria com Jack Trainer (Harrison Ford), um charmoso executivo com quem ela teve um desastroso primeiro encontro, é assumido o desafio de fechar o negócio milionário. Nesse momento, é interessante notar que o filme questiona a complexa relação de disputa entre mulheres e que pode acontecer no mundo do trabalho, sobretudo quando estamos falando de relações de hierarquia.

Ele exemplifica por meio do papel de Katharine o paradigma de gerenciamento definitivamente ultrapassado mas que, desde então, sobrevive aqui e acolá em modelos como o desta personagem ou, por exemplo, no de uma Miranda, de O Diabo veste Prada.

Bem articulado
De qualquer modo, no roteiro absolutamente bem articulado da comédia há espaço para o nascimento de um novo modelo, aquele que Tess passa a representar quando finalmente chega ao topo.

Na ocasião, após mostrar para uma jovem que se apresenta como sua secretária que ela não deve ocupar seu lugar antes de alcançar esse direito por seus próprios méritos, fica claro que nem por isso a relação delas será de absoluta subordinação.

Ela diz: “você só deve me trazer um café quando também quiser tomar um”, ou seja, ser um líder empresarial de verdade requer o necessário equilíbrio no exercício do próprio empoderamento, o qual afinal é inerente a tal função.

Uma Secretária de futuro (Working Girl), EUA, 1988, Comédia, 115 min. Direção: Mike Nichols. Elenco: Alec Baldwin, David Duchovny, Harrison Ford, Joan Cusack, Kevin Spacey, Melanie Griffith, Sigourney Weaver.